Tags

,

 

Nosso luxo vale a pena?

O Brasil é a bola da vez. A constatação que nos eleva a autoestima e joga lupa para a potência econômica que se apresenta está virando clichê. Desses que daqui seis meses, ninguém, por favor, deve intitular matéria nenhuma. Pode parecer pessimismo, mas não é. É entender a profundidade que essa afirmação tem. Sim, nós temos além de banana, o incansável desejo de consumo. A nossa fama é tanta que no início desse mês, São Paulo recebeu empresários de marcas de luxo, para dizer como o Brasil é agora o foco das grifes que etiquetam peças na casa dos milhares.

 

A editora de moda do International Herald Tribune, Suzy Menkes, diz que tanta compra é realizada em terras brasileiras, mesmo que pagando quatro vezes a mais do que o valor no exterior se deve basicamente a dois fatores: “Pela facilidade de dividir as compras no cartão de crédito (os gringos não entendem porque mesmo quem tem muito dinheiro a-do-ra parcelar) e pela qualidade do serviço. As brasileiras gostam de ser mimadas. E o serviço no Brasil é o mais cortês do mundo. Lembro que Tom Ford me contou que havia ficado impressionadíssimo com o serviço atencioso da Daslu.

E que em sua marca própria ia usar isso como modelo.”

 

A jornalista aponta São Paulo como a quinta capital de moda do mundo, atrás de Paris, Londres, Nova York e Milão. Suzy contou que o que diferencia o mercado brasileiro dos demais países emergentes é mesmo a cultura de compra. “Em um shopping do Rio de Janeiro você encontra ótimos artigos de luxo, a preços razoáveis, e eles são de marcas brasileiras. Em Moscou você não vê isso”, explicou. Esse discurso de muito luxo, um consumo desenfreado pode pegar mal. Não estou falando de investimentos, do impulso que esses negócios geram na economia, mas durante novembro inteiro só se comenta que nós brasileiros temos poder aquisitivo, que não é só no eixo Rio-São Paulo – tanto que as grandes grifes entregam por venda online no País inteiro-, mas ninguém para pra olhar nossos problemas reais.

 

Essa semana o Brasil recebeu a coordenadora do Brasil do instituto Global Fund For Children Book. Ela veio em busca de financiar ONGs que cuidam de crianças até 10 anos. Mesmo encantada com a gastronomia, a boa receptividade, ela desanimou: “lá fora a gente só ouve falar que o Brasil está no melhor momento, mas ainda há grandes problemas básicos por aqui”. Não precisa vir de fora constatar isso, mas ouvir do estrangeiro provoca o incômodo. “É, você tem razão e nós estamos aqui comemorando que nossa elite consome luxo desvairadamente”. Exagero? A grife italiana Versace, que ilustra essa página hoje, tem loja nos Jardins em São Paulo e é de lá o segundo maior faturamento da grife no mundo, entre as 59 franqueadas. Mas as peças são impecáveis, hein?

 

José Roberto Martins, autor do livro O Império das marcas, diz que “as pessoas não consomem grifes só por uma questão de projeção social, por causa da mensagem que elas transmitem aos outros. Trata-se também de auto-satisfação, de recompensa pessoal”.

 

Essa semana pelas ruas de Fortaleza, pelo Facebook, pelos convites fiz as contas rápidas, foram abertas pelo menos cinco novas lojas na Aldeota. É fim de ano e me peguei pensando: “qual a real recompensa pessoal que traz uma roupa nova?” São várias, mas antes de entrar nessa de levantar a bandeira do luxo, vamos entender que luxo no lixo não é lá projeção social nenhuma, e quem vai torrar R$ 20 mil num vestido de festa de fim de ano, devia olhar pela janela do carro e fazer o bem, a quem estiver próximo.

 

Luxo mesmo, do qual o brasileiro vai poder se orgulhar de consumir, é o da generosidade.

 

O publicitário Nizan Guanaes afirma: “Os olhos do mundo estão voltados para cá. Nós somos grandes jogadores agora”, afirmou. E o que a gente vai fazer com a nossa bola? Isso cada um decide por si. Versace pra mim, por enquanto, só na H&M…

 

Sobre a Versace

 

Nessa mesma semana em que grife italiana lança uma linha com preços mais acessíveis para a H&M, a Versace anuncia seu retorno ao calendário oficial da alta-costura. A Chambre Syndicale de la Haute Couture divulgou um comunicado confirmando a volta da grife ao line-up oficial, após um intervalo de sete anos. Nesse ínterim, a Atelier Versace, linha couture da marca, continuou a ser produzida, vestida por celebridades no tapete vermelho e fotografada para capas de revistas. O retorno será na próxima temporada, de verão 2012.

 

Anúncios